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O legado de Cristo e a história
Hamilton Moraes dos Santos
Publicado na edição 20 da Coluna

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De que forma a História encarou Jesus Cristo como protagonista histórico e o seu santo legado para a humanidade? O presente artigo não tem a pretensão de recontar a História de Cristo, pois para tal intuito, temos ao nosso dispor os Quatro Evangelhos Canônicos.

O período histórico no qual Jesus Cristo está inserido é a Idade Antiga (4.000 a.C. até 476 d.C.). Em 63 a.C. Pompeu tomou Jerusalém. A Palestina tornou-se província de Roma. A República Romana era na prática um gigantesco império. Nessa época, os domínios territoriais romanos cresceram consideravelmente, tais conquistas se davam através da atuação do poderoso exército. Em 27 a.C. Octávio Augusto transforma a República em Império Romano. Os governos romanos passaram a ser absolutos e teocráticos. O culto à figura do imperador passou a ser imposto em todo o gigantesco império. Tal obrigação tornou-se um problema na Palestina, pois os judeus cultuavam fielmente um único Deus, chamado Jeová. Toda a vida palestina girava em torno da religiosidade. A Palestina era uma Teocracia. A economia romana se baseava na exploração do trabalho escravo, na intensa atividade comercial e nos impostos recolhidos em suas províncias. A Palestina tinha grande importância estratégica e comercial na região a qual estava inserida. Porém pouco cooperava com Roma. Era uma província rebelde e problemática para a administração romana. Os efetivos militares romanos na região eram fortes e de caráter violentíssimo.

A elite sacerdotal judaica (Saduceus e Fariseus) estava aliada oportunamente aos interesses imperialistas romanos. Tal aliança tinha por objetivo a manutenção do poder político-religioso e dos bens materiais que gozava o clero judaico. Não lhes interessava as condições em que o povo judeu vivia, mas somente a manutenção de seus privilégios. E para Roma interessava somente a dominação da Palestina. Os palestinos pagavam seus impostos para ao clero judaico. Este, os dividia com os representantes de Roma. Em Jerusalém ficava o Templo Sagrado, no qual os sacros muros, segundo a tradição judaica, teriam sido erigidos sobre os escombros do templo original construído pelo rei Salomão para abrigar as tábuas dos Dez Mandamentos.

A vida dos judeus se organizava no campo e no meio urbano. O templo era um lugar de comércio, de vida social e de política. Nos tempos de Jesus, Jerusalém possuía cerca de cem mil habitantes.

A vida de Cristo é envolta em mistérios e imprecisões. Jesus não deixou documentos escritos do próprio punho. Sua passagem pelo planeta também deixou poucos vestígios arqueológicos e documentais. Porém a História de Cristo é uma das histórias mais conhecidas no mundo, principalmente no mundo ocidental. Inicialmente não existem fontes documentais oficiais, a respeito da vida de Cristo como o conhecemos. Por causa disso, alguns historiadores ortodoxos afirmavam que Jesus Cristo não é um personagem histórico, não havia existido realmente para a História. O problema está na ausência de fontes históricas.

Porém, a partir de 1929, dois jovens historiadores franceses, Marc Bloch e Lucien Febvre, protagonizaram o advento da Escola dos Analles, na França. Foi uma revolução na historiografia. Segundo a revolução dos Analles, outras fontes de estudo passaram a ser consideradas fontes históricas. Fontes históricas passaram a não se resumir somente a documentos governamentais, mas também a depoimentos orais, escritos, vestígios arqueológicos, passaram a ser considerados fontes de grande importância para a tentativa de interpretação e reconstrução do passado histórico. Da mesma forma a interdisciplinaridade passou a ser defendida pelo movimento dos Analles, como um instrumento de grande importância para a construção do conhecimento histórico. Geografia, Arqueologia, Antropologia, Sociologia, Economia, História, entre outras, poderiam juntas alcançar resultados científicos de grande fecundidade para suas respectivas áreas.

Dessa forma, a Bíblia ganhou grande importância como fonte histórica para se conhecer um pouco mais do povo judeu, de Jesus Cristo e dos primórdios do Cristianismo. Ainda mais quando analisada sob os olhares em conjunto da Arqueologia, Antropologia, Sociologia, Economia, História, Geografia, etc. Os Evangelhos Canônicos (Mateus, Marcos, Lucas e João), entre outras fontes, são a principal fonte histórica a respeito da vida e obra de Jesus. Tratam-se de quatro livros bíblicos sagrados para os seguidores de Cristo, escritos a partir de narrativas de pessoas que conheceram Jesus ou que ouviram falar d’Ele.

“O Cristianismo é uma religião de historiador. Outros sistemas religiosos fundaram suas crenças e seus ritos sobre uma mitologia praticamente exterior ao tempo humano; como Livros Sagrados, os cristãos têm livros de História, e suas liturgias comemoram, com os episódios da vida terrestre de um Deus, os faustos da Igreja e dos santos. Histórico, o Cristianismo o é de outra maneira, talvez mais profunda: colocado entre a Queda e o Juízo, o destino da humanidade afigura-se a seus olhos, uma longa aventura, da qual cada vida individual, cada”peregrinação” particular, apresenta, por sua vez, o reflexo; é nessa duração, portanto dentro da História, que se desenrola, o eixo central de toda meditação cristã, o grande drama do Pecado e da Redenção”(1)

Lucas é considerado o primeiro historiador do cristianismo, autor do evangelho que leva seu nome e do livro Atos dos Apóstolos. Porém Lucas, assim como os autores dos Quatro Evangelhos Canônicos, reuniu tudo o que foi escrito a respeito de Jesus. Entrevistou pessoas que testemunharam ou ouviram falar de Jesus. Misturando-se a tudo isso, Lucas teve suas próprias experiências de vida com Cristo e dentro desse processo ordenou o material de acordo com a sua interpretação. Devido a diferenças pessoais e à diversidade metodológica e dos autores, surgiram diferenciações entre os quatro referidos Evangelhos. Foram utilizadas em tais processos, fontes orais. Os testemunhos recolhidos para a composição dos evangelhos estavam imbuídos da fé cristã, ensinada por Jesus Cristo. As semelhanças entre os Quatro Evangelhos Canônicos são surpreendentes, pois são narrativas a respeito do legado de Cristo construídas em lugares e comunidades diferentes. Dessa forma, os quatro livros bíblicos possuem diferenças e semelhanças. Cada evangelista ofereceu a sua versão sobre a existência do Jesus histórico e do Jesus Filho de Deus. Para eles e para nós cristãos, as duas visões a respeito de Cristo centram-se na pessoa de Jesus. Na visão da História, na maioria das vezes, interessa somente o Jesus histórico.

“Visto que muitos já tentaram compor uma narração dos fatos que se cumpriram entre nós – conforme no-los transmitiram os que, desde o princípio, foram testemunhas oculares e ministros da Palavra – a mim também pareceu conveniente, após acurada investigação de tudo desde o princípio, escrever-te de modo ordenado, ilustre Teófilo, para que verifiques a solidez dos ensinamentos que recebestes.” (Lucas1: 1-4).

Além dos autores dos Quatro Evangelhos Canônicos, destaco quatro historiadores da Antiguidade que abordaram direta ou indiretamente os primeiros anos do subversivo legado de Cristo. Foram eles: os historiadores romanos Suetônio, Tácito e Plínio, o moço e o historiador judeu Flávio Josefo.

O biógrafo imperial Suetônio afirmou que no ano 50 d.C., o imperador Cláudio expulsou de Roma os judeus e também os cristãos (pois eram todos iguais aos olhos dos romanos). Os cristãos teriam se rebelado por incitamento de um certo Chrestus, em quem Suetônio procurou ver a figura de Cristo, cujos seguidores, semeavam a discórdia na sinagoga. O ato de Cláudio decorreu por causa das atividades subversivas instigadas por um certo Chrestus. Assim como existiam comunidades judaicas (existia cerca de uma dúzia de sinagogas em Roma, a maioria delas localizada à margem esquerda do Tibre), existia uma comunidade cristã na capital imperial, porém a origem da mesma é um mistério.

Tácito por sua vez, evidenciou “a detestável supertição” dos chamados cristãos, nome proveniente de Cristo, condenado a morte pelo procurador romano Pôncio Pilatos durante o principado de Tibério. Os seguidores do legado de Cristo, passaram a ser chamados pejorativamente de cristãos a partir do ano 45 d.C. “ ... E foi em Antioquia que os discípulos, pela primeira vez, receberam o nome de cristãos”. (Atos 11: 26.)

Plínio, então legado da Bitínia, solicitou a Roma instruções sobre que atitudes tomar para com os numerosos adeptos dessa “má supertição levada ao extremo”, que se dirigiam a Cristo como se ele fosse um deus.

O Talmude Babilônico fala de Jesus como um mago, um agitador que zombou das palavras dos sábios, teve cinco discípulos e foi enforcado na Páscoa.

O caso mais complexo é do historiador judeu Flávio Josefo. Foi integrante do exército romano, sob as ordens de Trajano. Dedicava-se também à História e possuía um vasto conhecimento do contexto social, político e principalmente religioso dos judeus. Durante muito tempo, Flávio Josefo foi uma das poucas fontes historiográficas que abordou diretamente o povo judeu durante os dois últimos séculos de sua existência nacional e o contexto sócio-político em que nasceu o cristianismo. Em sua obra Antiguidades Judaicas (90 d.C.), o historiador judeu mencionou Cristo de maneira sóbria: ao analisar o processo e o apedrejamento de “Thiago, irmão de Jesus, o assim chamado Cristo” e ao abordar superficialmente o caráter messiânico e as pregações de Jesus Cristo.

“Nesta época viveu Jesus, um homem excepcional, pois realizava coisas prodigiosas. Mestre de pessoas que se mostravam totalmente dispostas a dar boa acolhida às doutrinas qualificadas, conquistou para si muita gente entre os judeus e até mesmo entre os helenos. Quando, denunciado pelos nossos chefes religiosos, Pilatos o condenou à cruz, aqueles que a ele se haviam afeiçoado desde o princípio não deixaram de ama-lo, porque lhes aparecera ao terceiro dia novamente vivo, como os divinos profetas o haviam declarado, acrescentando ainda mil outras maravilhas a seu respeito. Mesmo em nossos dias, não se extinguiu a linhagem dos que por causa dele se chamam cristãos.” (2)(Antiguidades XVIII, 63-64).

Porém os registros de Flávio Josefo sobre Jesus Cristo foram muito contestados. Estudiosos interpretaram a citação acima como uma suposta fraude fabricada por copistas cristãos. Afirmaram que os copistas cristãos resolveram alterar o texto de Flávio Josefo visando a ênfase na figura de Cristo. Entretanto, recentemente o erudito israelense Shlomo Pines chamou atenção para antigas citações do texto de Flávio Josefo, ligeiramente diferentes do texto habitualmente recebido e que parecem atestar que Josefo realmente falou do caráter messiânico de Jesus. Flávio Josefo chega a afirmar que “talvez ele (Jesus) fosse o Messias a respeito do qual os profetas disseram prodígios”.

Dentro do contexto arqueológico, em 1947 aconteceu a descoberta acidental dos Manuscritos do Mar Morto às margens do Mar Morto, nas colinas de Qumran, em Israel. A partir de tal descoberta, Flávio Josefo deixou de ser a única fonte histórica oficial de estudos a respeito dos últimos séculos dos judeus enquanto nação, antes da diáspora provocada pelos romanos (70 d.C.). O grande interesse mundial pelos Manuscritos do Mar Morto, reside na possível conexão entre Jesus Cristo e os essênios.

É importante enfatizar a semelhança ou alguma possível relação entre alguns ensinamentos de Cristo e o modo de vida dos essênios. Existem autores que afirmam a possibilidade de Jesus Cristo ter vivido entre os essênios durante um misterioso período de sua vida que vai dos doze anos de idade aos trinta. A partir dos trinta anos de idade, Cristo começou sua missão na Palestina através de pregações para o povo, de prodigiosos milagres e de firmes posicionamentos espirituais e materiais. Alguns estudiosos afirmam que João Batista teria também pertencido à seita dos essênios. Os essênios possuíam uma firme postura crítica para com os judeus da época e pode-se dizer que prepararam inconscientemente o caminho para o Cristianismo. Boa parte dos Manuscritos do Mar Morto não escapou à destruição do tempo. O governo israelense proibiu o acesso a um quarto dos mil rolos preservados (o prazo dado para a liberação dos pergaminhos já expirou há muito tempo, que seria em 1970. As autoridades israelenses prorrogaram-no para 1997, mas em caráter aleatório). O conteúdo dessa parte interditada dos Manuscritos do Mar Morto é segredo de Estado. Por algum motivo, não convém ao governo israelense liberar o restante dos rolos. Assim sendo, a descoberta arqueológica dos Manuscritos do Mar Morto, de Qumran tornou-se tão importante para os judeus como também para os cristãos. É considerado a maior descoberta arqueológica do século XX.

As primeiras pessoas que resolveram seguir as palavras de Cristo, em sua maioria, foram pobres, escravos, indivíduos excluídos que viviam muito mal às margens do Mar Mediterrâneo. Esses, primeiros seguidores de Cristo, foram extremamente perseguidos, torturados e mortos. Para as elites do Mundo Antigo, onde o poder político estava intimamente ligado a manipulação religiosa, era impossível aceitar uma mensagem de libertação e de redenção tanto para o campo material e como para o campo espiritual. O legado de Cristo abalou as estruturas do Mundo Antigo baseado na manipulação religiosa e no escravismo. Na medida em que os cristãos foram perseguidos, o Cristianismo cresceu assustadoramente. Esses primeiros cristãos marcaram a História do período final da Idade Antiga. Nenhuma religião deixou tamanho legado para a humanidade. Jesus Cristo transcendeu a religião judaica e transformou o mundo para sempre.

Não existem registros governamentais do nascimento de Cristo, de seu julgamento, de sua morte. Cristo não assinou seu nome em nada. Não houve registros, de sua existência nas atas oficiais do Estado Romano. No entanto, existem relevantes fontes históricas que relataram e registraram os fatos importantes protagonizados por Cristo e o contexto social, político e religioso aos quais Jesus estava inserido. Através dos depoimentos de testemunhas que andaram com Jesus, de vestígios arqueológicos, do relato de alguns historiadores da época tornou-se possível para a História encarar Jesus Cristo e a sua herança para a humanidade, como um dos capítulos mais fascinantes da História da humanidade. Eu diria um período único da História humana, em que seria impossível para uma mente humana criar ou inventar o legado de Jesus Cristo. Um legado que transcende a psique humana e torna-se inexplicável, para os psicólogos entender como um ser humano comum seria capaz de protagonizar seus feitos e mensagem. Algo nunca visto na História da humanidade, terminando por revolucionar a trajetória do gênero humano.

“Se a importância histórica for medida pelo impacto no maior número de pessoas, pode-se afirmar com certeza que nenhum evento isolado, nos tempos antigos, e talvez em toda a História humana, foi tão importante como o nascimento do homem que passou para a História com o nome de Jesus... Desde então toda a História da humanidade comprova a sua importância, simplesmente porque aqueles que mais tarde se intitularam cristãos, seguidores de Jesus, mudariam a História de todo o globo.”(3)

(1) BLOCH, Marc. Apologia da História ou o ofício de historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 2001, p.42.

(2) FLÁVIO JOSEFO: uma testemunha dos tempos dos Apóstolos. São Paulo: Ed. Paulus, 1986, p. 52.

(3) ROBERTS, J. M. Livro de Ouro da História do Mundo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001, p. 225.

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