O crescente número de artistas que produzem para o segmento evangélico, é algo surpreendente. Acompanhando esse crescimento, estão surgindo novas gravadoras, de todos os portes para atender a esta demanda. Há quem diga que isso é muito bom, porque a música acaba tornando-se uma boa forma de transmitir-se a Palavra de Deus; neste ponto não há dúvida. Porém, ao mesmo tempo, algumas conseqüências desse fenômeno devam ser avaliadas, para que a produção de música evangélica seja repensada em alguns aspectos.
Há tempos atrás, alguns instrumentos, como bateria e guitarra, entre outros, não eram aceitos nas igrejas, devido a padrões e preconceitos que precisavam ser quebrados; esse processo foi muito importante para que se chegasse à variedade que existe hoje. A questão é que cada um dos novos estilos tende a ser padronizados da mesma forma. E, na música evangélica atual, são poucos os que procuram fazer algo menos tradicional, sem deixar de ser inspirador. O fator determinante, para o sucesso de qualquer ministério, seja da música ou de qualquer outra área, não está na forma ou no plano de trabalho, mas na seriedade das pessoas em fazer aquilo que o Senhor tem ordenado a eles. Nem os maiores pregadores da Palavra fazem seus sermões da mesma maneira, mas são todos abençoados porque Deus os usa do jeito que são para falar ao Seu povo. Muitas vezes as igrejas dispõem de músicos e compositores talentosos, mas que geralmente, não são incentivados a fazer o seu estilo, mas a importar um padrão pré-determinado. Isso não é saudável.
Outro ponto a ser considerado, é o nível de preparação dos músicos. Tanto no que se refere aos cantores, como compositores e instrumentistas. Naquilo que fazem, a maioria cumpre muito bem o seu papel; da parte de alguns, porém, não há interesse em conhecer outras linguagens musicais, que poderiam enriquecer sua produção. Cabe uma observação interessante, quanto a isso: normalmente os compositores são leigos, e os produtores são responsáveis por toda a organização da estrutura das canções. Não pretendo aqui defender a formação de uma elite musical evangélica, mas estimular aqueles que participam da música, de alguma forma, que procurem ampliar os seus conhecimentos dentro das suas possibilidades.
CONSTRUINDO BASES
Mas, talvez o maior questionamento a ser feito, é em relação ao aprendizado da Bíblia. Será que o enfoque, nos grandes eventos e produções musicais, tem tirado o espaço da reflexão na Palavra? Falando de forma prática: será que os crentes, especialmente os jovens, conhecem as Escrituras, da mesma forma que os tantos corinhos/hinos que são cantados no nosso meio? A resposta a essa pergunta revela as bases em que a nova geração cristã está sendo construída. Embora alguns desses cânticos tenham letras que falam muito ao nosso coração, a Bíblia pode nos trazer mensagens mais específicas da parte d’Ele pra nós, ao ensinar-nos o caminho para uma vida abençoada (Josué 1:8); a leitura bíblica deve fazer parte da nossa vida espiritual diária, como a oração e o louvor.
Muitos cristãos estão acostumados a ouvir a Palavra, somente através das mensagens e dos livros de pastores e líderes denominacionais. Paulo, entretanto, afirma-nos em I Coríntios 2:12 – “Ora, nós não temos recebido o espírito do mundo, e sim o Espírito que vem de Deus, para que conheçamos o que, por Deus, nos foi dado gratuitamente”. E ainda em II Timóteo 3:16-17 “Toda Escritura é inspirada por Deus e útil (...) a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra”. Só a iniciativa pessoal do crente abre espaço para que o Espírito Santo fale ao seu coração e fortaleça a sua fé, ensinando-lhe o que lhe é necessário.
A partir disso, convido a todos os que participam do ministério de música – gravando, compondo, tocando ou de qualquer outra forma – a refletir sobre alguns desses pontos. Vamos juntos, buscar a edificação do corpo de Cristo, através de uma produção musical cada vez mais original, diversificada, excelente e, sobretudo cheia da unção de Deus; e também de uma vida cristã exemplar, tanto na capacitação profissional como no estudo da Palavra, na oração e na comunhão. “Para que, naquilo em que [os gentios] falam contra vós outros, como de malfeitores, observando-vos em vossas boas obras, glorifiquem a Deus no dia da visitação” (I Pedro 2:12b).
Gustavo Pedroza é membro da PIBRJ e aluno do curso de comunicação social na UFRJ
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