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Tenho a impressão de que o hábito de olhar para o céu e ver estrelas pode transmitir uma idéia pequena do tamanho do universo.
Às vezes, quando vou à praia, tento isolar na palma da minha mão um grão de areia. Imagino, então, que esse grão represente a Terra. Olhando à minha volta, tento captar a imensidão incontável de grãos que formam a praia. Ainda que pudesse contar todos os grãos de todas as praias na Terra, quantidade que minha mente não chega nem perto de alcançar, não chegaria ao número de planetas e diferentes corpos celestiais que existem no nosso universo. A próxima vez que for à praia, experimente pensar nisso ao contemplar os grãos de areia à sua volta.
Agora, sugiro que você guarde esse contexto consigo e pare de ler essa coluna. Na próxima noite de sábado livre, vá à sua locadora e alugue o filme Contato, dirigido por Robert Zemeckis e estrelado por Jodie Foster. Se você nunca assistiu a esse filme, prepare-se para uma noite cheia de surpresas. Se já o assistiu, acredito que uma segunda conferida pode lhe trazer novas perspectivas. Após ter visto o filme, e ter chegado às suas próprias conclusões e opiniões, continue a ler e a concordar ou discordar desse texto. Na minha opinião, trata-se de uma pequena obra prima: um daqueles raros casos onde o filme consegue ser superior ao livro que o inspirou.
O filme, baseado na obra homônima do astrônomo Carl Sagan, trata, dentre seus muitos temas, do diálogo entre a ciência, com sua necessidade de provas concretas, e a fé baseada em experiência pessoal. Para tanto, conta a história de uma astrônoma, a Dra. Ellie Arroway, que dedica sua vida à busca por vida inteligente fora do nosso planeta. Até o dia em que chega a ela uma mensagem vinda dos céus. Nessa sua busca, ela inevitavelmente se depara com o questionamento pela existência de Deus.
A idéia de que fé e ciência devem ser antagonistas é um dos questionamentos centrais do filme. O filme deixa clara sua opinião de que fé e ciência compartilham de um mesmo propósito: a busca pela verdade. Fica implícito que esse antagonismo surge quando uma das duas se desvia desse propósito. Quando isso acontece, correm o risco de se tornarem formas de imposição. Casos assim são recorrentes na nossa história. Galileu, por exemplo, comprovou que a Terra não era o centro do universo, mas possuía uma órbita ao redor do Sol. No entanto, foi forçado pela igreja a negar todo seu trabalho, já que acreditava-se que tal afirmação negava as escrituras. Por outro lado, a ciência já declarou a morte da fé inúmeras vezes, ignorando o fato de que 95% da humanidade, como diz o filme, acredita de alguma forma em um algum ser superior a nós, crença essa que nos acompanha desde os primórdios da humanidade. Albert Einstein declarava a raiz da ciência como sendo o mistério divino: “A mais bela experiência que podemos ter é a do mistério. Ele é a emoção fundamental que se acha no berço da verdadeira arte e da verdadeira ciência... Foi a experiência do mistério – mesclada com a do medo – que gerou a religião. Saber da existência de algo que não podemos penetrar, perceber uma razão mais profunda e a mais radiante beleza, que só nos são acessíveis à mente em suas formas primitivas, esse saber e essa emoção constituem a verdadeira religiosidade. Nesse sentido, e apenas nele, sou um homem profundamente religioso.” (Einstein e a Religião – Max Jammer) Tanto fé quanto ciência não devem se esquecer nunca que são formas de buscar algo: no caso da fé, Deus, e no caso da ciência, o conhecimento da obra divina. Como tal, devem reconhecer que não atingiram o conhecimento pleno daquilo que buscam. A partir do momento que qualquer uma acredita já conhecer o objeto de estudo em sua totalidade, essa busca corre um sério risco de se desvirtuar de seu propósito original.
Dentre as muitas definições para fé, talvez a que se encaixe melhor no contexto do filme é dada por Umberto Eco em “O Pêndulo de Foucault”, onde o autor diz que “se duas coisas não se encaixam, mas você acredita nas duas, achando que em algum lugar, escondido, deve haver uma terceira coisa que as conecte, isso é crença”. Essa definição mais “científica” não atrela crença a fé em Deus, apesar de poder ser aplicada dessa forma. De forma semelhante, o filme não se contenta em questionar a fé em Deus, mas o princípio de crença em si, seja ela em Deus ou em qualquer outra coisa. No filme, a Dra. Arroway diz não acreditar em Deus por falta de provas concretas, rejeitando a idéia de fé baseada em experiência pessoal. No entanto, ao longo de sua busca por vida extraterrestre, ela acabará se encontrando numa posição onde só lhe restará justamente a crença na experiência que teve, uma vez que não lhe será dada nenhuma prova do que ela passou para compartilhar com os outros. Essa ironia, que de forma alguma busca desmerecer a postura dela, acaba sendo motivo de aproximação da ciência, representada na figura da Dra. Arroway, com a fé, presente na figura do Reverendo Joss, e acaba por levar o filme ao que talvez seja sua mensagem final: que fé e ciência devem andar de mãos dadas.
André Veiga Magalhães é membro da PIBRJ e engenheiro de computação
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