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Em Os Irmãos Karamazov, Fiodor Dostoievski conta uma história que certamente vale a pena ser recontada...
Era um dia como outro qualquer na Sevilha do século XVI. Todavia, sem que ninguém soubesse como, o próprio Cristo surge a andar pelas ruas. Todos o reconhecem e o cercam. Um homem cego chama por ele e é curado. Um cortejo fúnebre é interrompido e suas palavras fazem levantar a criança que havia falecido. Então o Grande Inquisidor o vê e – para o espanto de todos – o manda prender.
Algumas horas depois, este sacerdote nonagenário vai visitá-lo no calabouço e, em um misto de raiva e admiração, começa a explicar-lhe porque é que ele decidira não só prendê-lo, mas também lançá-lo à fogueira no dia seguinte como o pior dos hereges. Jesus trouxera liberdade total aos homens, dando-lhes acesso irrestrito à vida. Para a maior parte da humanidade, todavia, esta liberdade manifestara-se principalmente como uma responsabilidade esmagadora da qual ansiava estar livre. Ao se dar conta disto, a Igreja optara por aliviar a humanidade deste peso, tomando-o sobre si. Sendo assim, já havia muito tempo que vinha desfazendo a obra – a seu ver – catastrófica do Cristo, devolvendo os homens à condição de escravos e, conseqüentemente, dando-lhes de volta a alegria de viver. E aqui estava ele novamente, pronto para estorvar um trabalho de séculos...
O raciocínio do Grande Inquisidor é assustadoramente lúcido. Liberdade e responsabilidade andam sempre de mãos dadas; não há como usufruir a primeira sem dar conta da segunda. Segundo ele, ao negar as três tentações, Cristo teria deixado bem claro que não pretendia oferecer a sua liberdade a ninguém que não estivesse ciente disto. Por isso, teria decidido não torná-la mais atrativa nem com milagres baratos – transformando pedras em pão –, com mistérios falsos – sobrevivendo à queda do pináculo do Templo – ou com autoridade terrena – recebendo o domínio de todo o mundo. De fato, ele teria dado a todos a chance de escolher seguí-lo por sua própria vontade, pesando os benefícios e malefícios desta decisão, sem qualquer coação ou argumento forçado.
É certo que uma longa lista de teólogos altamente respeitáveis negaria tal afirmação veementemente. Para estes, de uma forma geral, a graça de Deus é irresistível e, assim sendo, seria determinada não pelo livre-arbítrio de cada indivíduo, mas sim pela vontade inescrutável do próprio Deus. Esta questão, todavia, é de tal forma permeada por incertezas que jamais se chegou a qualquer conclusão sólida a seu respeito e – sejamos sinceros – dificilmente se chegará um dia. Sendo assim, assumiremos a existência do livre-arbítrio do homem, por mais limitado que ele possa ser, como pressuposto.
Para analisar o pensamento do Grande Inquisidor é preciso partir da seguinte pergunta: Cristo se apresenta como um caminho de liberdade e responsabilidade? Sim. Por mais que ele tenha chamado a si os cansados e sobrecarregados com uma promessa de alívio – o que vai totalmente contra a afirmação do Inquisidor –, é inegável que a sua mensagem aponta para a liberdade e que, portanto, chama o indivíduo a uma prestação de contas também para consigo mesmo. Desta forma, aquele que toma sobre si o seu jugo, que é suave e leve, não está isento de lidar com uma responsabilidade proporcional à liberdade que adquire.
Mas qual é a extensão desta liberdade e desta responsabilidade que recebemos através de Cristo? A resposta para esta questão – quer gostemos ou não – é determinada pelo papel que a Igreja desempenha em nossas vidas. Com isso, é necessário perguntar: até que ponto a Igreja é a depositária da nossa liberdade e responsabilidade?
Em última análise, esta é uma questão que cada um de nós precisa responder por si mesmo. Entretanto, é fácil notar que sempre que recebemos da Igreja uma coleção de normas e padrões de comportamento sem qualquer questionamento – como se a decisão de adotá-los não pertencesse a nós –, estamos entregando a ela um grau de responsabilidade que é nosso e, conseqüentemente, um mesmo grau de liberdade.
Por que vamos à igreja? Por que vamos à Escola Bíblica, ao coral, às uniões de treinamento? Por que é que cantamos tanto? Por que é que ouvimos tranqüilamente – e sem dar qualquer sinal de desânimo – longos sermões que muitas vezes sequer nos interessam? Por que oramos? Por que lemos a Bíblia? Por que não bebemos e não fumamos? Por que nos casamos? Por que nos sujeitamos a tantas restrições que diz respeito à prática sexual?
Estas são apenas algumas perguntas que colocam a tradição em cheque. É certo que cada um de nós é capaz de encontrar muitas outras. Quanto às respostas, a situação não é tão simples. Esgotadas as “Porque foi o que aprendi na igreja”, “Porque foi assim que meus pais me ensinaram” e “Porque está na Bíblia”, enfrentaremos dificuldades para encontrar outras.
Penso que o Grande Inquisidor viu algo que muitos de nós não vêem: que todas estas decisões são nossas – e apenas nossas. A Igreja, nossos pais e a Bíblia jamais poderão decidir nada por nós. Se, como família ou Igreja, pensamos de forma semelhante, isto é conseqüência de uma série de decisões individuais, e não de uma imposição externa inviolável. Com isso, fica claro que podemos encarar as nossas decisões de duas formas: assumindo de uma vez por todas a nossa liberdade e responsabilidade, ou abrindo mão delas através de uma ignorância auto-indulgente.
Se optarmos pela segunda opção, acabaremos construindo uma Igreja muito parecida com aquela descrita pelo Grande Inquisidor: uma Igreja que aprisiona e escraviza em troca de uma satisfação pobre oferecida a homens e mulheres resignados à mediocridade. Por outro lado, caso optemos pela primeira opção – caso decidamos assumir a liberdade e a responsabilidade que nos foram entregues sem ressalvas – que Igreja estaremos erguendo? Sua face pode ser uma incógnita, mas a coragem que lhe servirá de alicerce será inequívoca.
Pedro Vieira Veiga é membro da PIBRJ, aluno do curso de teologia no STBSB e do curso de psicologia na UERJ
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